quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A incrível história do jogo (de 1ª divisão no Brasil) com apenas um pagante




    O alto-falante do estádio Rei Pelé, em Maceió, economizou palavras ao avisar o público pagante no empate de 1 a 1 entre Miguelense e Murici, domingo passado (19), pela sexta rodada da primeira divisão do Campeonato Alagoano.
“Um pagante”, anunciou o locutor.
Além de apenas uma pessoa pagar para ver o jogo, a compra ainda foi de meia-entrada, de estudante, a R$ 10 para arquibancada alta, único setor do estádio com ingressos (200 no total) à venda para a partida.
O valor de R$ 10 foi a renda total que, após pagamento de taxas como seguro, aluguel de campo, arbitragem, entre outros, gerou prejuízo de R$ 2.844,90 ao Miguelense Futebol Clube, o mandante naquela noite.
A mudança de horário na semana que antecedeu à partida, das 16h para as 20h para atender demanda de transmissão de TV, e um bloco carnavalesco que agitou a cidade de São Miguel dos Campos, que fica a 65 km de Maceió, fizeram com que a diretoria do Miguelense optasse por dar ingressos da partida a torcedores para estimulá-los a se deslocar entre as cidades num domingo à noite. Era melhor ter o apoio de alguns fãs, mesmo se houvesse prejuízo.
Só que Ronaldo Nunes, 32, já havia comprado seu ingresso na sexta-feira (17) à tarde. O único a adquirir a entrada até a diretoria decidir dar os bilhetes com a mudança de horário – e depois saberíamos que seria realmente o único pagante no borderô da partida pelo Alagoano.
“Comprei o ingresso de um funcionário, um assessor, do clube. Estudo ciências contábeis, portanto comprei de estudante. Teve um bloco na cidade, então acho que o pessoal preferiu se divertir do que ir ver o jogo, por isso acredito que só eu comprei o ingresso”, disse Nunes.
Como tem namorada que mora em Maceió, para Nunes não seria problema ir até a capital ver o time de sua cidade – fã do Flamengo e do Miguelense, ele vai ao campo sempre que pode.
Mas chegando ao portão do estádio, encontrou o mesmo funcionário que tinha vendido o ingresso a ele e soube que todos que estavam ali haviam recebido seus bilhetes gratuitamente.
“Aí tinha uma pessoa lá que estava sem [ingresso, os distribuídos pela diretoria haviam acabado porque o time visitante também recebeu alguns], e acabei repassando o bilhete para ele e entrando com o pessoal do clube”, contou Nunes, que não conhecia a pessoa que recebeu o único ingresso vendido para aquele jogo.
Ele assistiu ao jogo, que confrontava os dois piores times do campeonato até aquele momento, ao lado de outras 51 pessoas, as que receberam os bilhetes de graça. A maioria, na verdade, parentes de jogadores e membros da diretoria do Miguelense e do Murici.
“Era um ambiente bastante família, poucas pessoas”, lembrou Nunes.
Prejuízo
Nunes ficou próximo do presidente do Miguelense, Uedson da Silva, que garantiu que a promoção de ingressos gratuitos não será repetida no Estadual. Nesta quarta (22) à noite, por exemplo, o Miguelense encararia o CRB, um dos grandes do Estado, em Murici. Com todos os bilhetes à venda.
“Nossa prefeitura não ajuda, não quer colocar refletor no estádio [Manoel Ferreira, com capacidade para 15 mil pessoas] em São Miguel, por isso precisamos jogar em outras praças. O jogo de Maceió foi atípico por causa da mudança do horário”, disse Silva. Ele lamentou o prejuízo que o Miguelense, fundado em 1995 e que subiu à elite alagoana para 2017, teve na partida, mas disse já estar acostumado.
“Acordo para transmissão de TV é R$ 20 mil apenas. Minha folha salarial é R$ 25 mil por mês. É difícil manter o futebol assim. Mas vamos tocando”, comentou o dirigente. O total pago pelos direitos de transmissão do Alagoano, que tem a retransmissora da TV Globo e o Esporte Interativo como detentores do direito em TVs aberta e fechada, não chega a R$ 500 mil no total .
“A estrutura no futebol do interior é essa. Sem apoio”, complementou. 



   fonte uol

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